"A Vegetariana" de Han Kang
"Acho que os Humanos deveriam ser plantas" -Yi Sang
Esta frase do poeta coreano Yi Sang, poderia conter nela toda a narrativa de "A Vegetariana". Na verdade, a sua autora, Han Kang foi fortemente influenciada por este poeta.
O livro, vencedor do
Man Booker International Prize, centra-se na trajectória vivida pela personagem principal
Yeong-je. Numa tentativa de retirar de si todos os vestígios da sua essência animal, a narrativa inicia com a sua decisão repentina de deixar de comer carne. Este será apenas o primeiro passo que culminará numa tentativa de se aproximar cada vez mais a uma planta.
Dividido em três partes - três actos, poderemos dizer-, a
trajetória da personagem principal é nos narrada, nunca por ela própria, mas pelas pessoas ao seu redor, dando-nos ainda mais a percepção de estranheza e preocupação que tal decisão acarreta.
Yeong-hye é nos apresentada como uma mulher mediana, sem nada que a
destaque ou a torne especial, uma característica que o seu marido vê como ideal
para um casamento: basicamente, apresenta-se como uma mulher submissa, calada e que parece nunca
ter tomado uma decisão por si mesma na vida.
A decisão de deixar de
comer carne, uma decisão repentina e motivada por um sonho constante da protagonista marca a primeira vez em que toma uma atitude unicamente pessoal. É através destes sonhos que conseguiremos ter alguma noção da sua motivação para deixar a carne: o carácter sanguinário e assassino dos seus sonhos transtornam-na ao ponto de querer abolir todos os vestígios de sangue da sua vida para que acalme a sua psique. A tentativa de se libertar destes impulsos, que ela vê como animais despoletam todas as suas decisões ao longo da narrativa, sendo que ao tornar-se numa planta, tornar-se-á de vez no ser completamente pacifico e sem vestígios de sangue, conseguindo domar de vez os impulsos que sente dentro dela e que despertam nestes sonhos.
Para ela este é simplesmente um passo natural, descomplexado e cheio de certeza que mais ainda contrastará com a estranheza, preocupação e afastamento que veremos das outras personagens em resposta à sua atitude.
Com esta decisão começa uma jornada de transformação que nunca mais terminará, e que não é vista com bons olhos por ninguém: desde o seu marido, que não fica nada satisfeito, pois deixa de ter controlo sobre a sua casa, mulher ou sobre o quotidiano mundano e perfeito que criara para si; a sua família, que vê surgir nela um ato de insubordinação e
rebeldia sem precedentes contra os valores sociais que a condicionam enquanto mulher casada e submissa ao marido; até mesmo aos colegas e chefe do marido, que a olham
como um ser quase extraterrestre sem compreensão e totalmente alienado da realidade.
Na verdade, um dos aspetos que mais constrange os outros personagens é a liberdade que esta mulher adquire dos valores sociais que são esperados de uma mulher "normal", e que são ainda muito mais patriarcais nas sociedades orientais, como a coreana e a japonesa: basta ver como a sua irmã, In-hye é descrita como alguém um pouco mais independente, por trabalhar fora, mas mesmo assim, continua a ser uma personagem que segue os valores que são esperados dela: seja em casa, como cuidadora do filho e compreensiva com o marido, ou mesmo, como chegamos a saber, como cuidadora do próprio pai e dos irmãos enquanto crescia, uma vez que era a filha mais velha.
Este é decerto um livro intenso que nos faz questionar os direitos ao nosso próprio corpo: quanto mais a protagonista se tenta libertar das convenções mais é presa, e vemos até a força abusiva para a obrigar a comer, primeiro pela família e a seguir pelos médicos.
A não compreensão dos seus motivos e o respeito pelas suas decisões é uma constante ao longo da narrativa. E é aqui que podemos tecer um paralelo não apenas com quem seguirá um regime vegetariano (até porque o motivo primário que a leva a tomar esta decisão tem um fundo bastante diferenciado) mas por todos aqueles que escolhem seguir um caminho que choca com os valores impostos pela sociedade. Todos os que vão contra uma norma imposta e que se veem num papel de constante luta para fazer ver os seus valores e que são postos de lado e até vistos como loucos.

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