"O Ano da Morte de Ricardo Reis", de João Botelho
"O Ano da Morte de Ricardo Reis", foi o segundo livro de José Saramago que li. Apaixonada pela obra de Fernando Pessoa desde os tempos de escola e com a descoberta da genialidade de Saramago ainda recente este tornou-se numa escolha óbvia quando comecei a explorar a obra de Saramago.
Confesso que apesar de não ter abalado o meu amor pela escrita de Saramago, tornou-se num dos menos prediletos do autor: talvez pelo facto de Ricardo Reis, ter sido sempre o meu heterónimo menos preferido (a minha "escolha" recai sempre para o futurista e cínico Álvaro e os seus poemas épicos e infindáveis) e pelo facto de Saramago, ter feito a escolha - inteligente - de retornar a uma voz literária mais clássica do que aquela a que estamos habituados na sua obra.
No entanto, apesar do meu gosto pessoal, é sem sombra de dúvidas compreensível o estatuto de genialidade atribuído a este romance: desde a voz clássica, que ecoa das odes classicistas de Ricardo Reis, a uma imagem de uma Lisboa à beira de uma ditadura salazarista, até à excelente forma como aborda a heteronímia de Pessoa.
Quando fui ver o novo filme de João Botelho, inspirado nesta obra, fui com alguma expetativa, mas sempre com um pé atrás: não será de certo fácil transpor para o cinema a obra de um génio literário, como Saramago, quanto mais quando este evoca um outro, Fernando Pessoa. No entanto, Botelho esmerou-se: não só nos prende com as conversas que Pessoa e Reis trocam acerca da morte e da vida e do mundo, como nos transporta para a uma Lisboa dos anos 30, com uma facilidade extrema.
Tudo desde a banda sonora, a atuação fabulosa do elenco e aos diálogos e até aos pequenos detalhes conseguidos pelas sombras e planos conseguem prender-nos e puxar-nos para dentro deste universo.
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